03 outubro, 2006

Blimunda......porquê?


Já alguma vez se questionaram porque é que Saramago escolheu o nome Blimunda para uma das personagens principais do livro?

Será que o nome é uma consequência da forma rara e estranha de ser da personagem?

Vejam a entrevista a Saramago onde ele explica a sua escolha.


"Muitas vezes me perguntei: porquê este nome? Recordo-me de como o encontrei, percorrendo com um dedo minuncioso, linha a linha, as colunas de um vocabulário onomástico, à espera de um sinal de aceitação que haveria de começar na imagem decifrada pelos olhos para ir consumar-se, por ignoradas razões, numa parte adequadamente sensível do cérebro. Nunca, em toda a minha vida, nestes quantos milhares de dias e horas somados, me encontrara com o nome de Blimunda, nenhuma mulher em Portugal, que eu saiba, se chama assim.

(...)Tentando, nesta ocasião, destrinçar aceitavelmente as razões finais da escolha que fiz, seria uma primeira razão a de ter procurado um nome estranho e raro para dá-lo a uma personagem que é, em si mesma, estranha e rara. De facto, essa mulher a quem chamei Blimunda, a par dos poderes mágicos que transporta consigo e que por si sós a separam do seu mundo, está constituída, enquanto pessoa configurada por uma personagem, de maneira tal que a tornaria inviável, não apenas no distante século XVIII em que a pus a viver, mas também no nosso próprio tempo. Ao ilogismo da personagem teria de corresponder, necessariamente, o próprio ilogismo do nome que lhe ia ser dado. Blimunda não tinha outro recurso que chamar-se Blimunda.

Ou talvez não seja apenas assim.

(...)Que outra condição, então, que razão profunda, porventura sem relação com o sentido inteligível das palavras, me terá levado a eleger esse nome entre tantos? Creio que sei a resposta, que ela me acaba de ser apontada por esse outro misterioso caminho que terá levado Azio Gorghi a denominar Blimunda uma ópera extraída de um romance que tem por título Memorial do Convento: essa resposta, essa razão, acaso a mais secreta de todas, chama-se Música. Terá sido, imagino, aquele som desgarrador de violoncelo que habita o nome de Blimunda, profundo e longo, como se na própria alma humana se produzisse e manifestasse, que me levou, sem nenhuma resistência, com a humildade de quem aceita um dom de que não se sente merecedor, a recolhê-lo num simples livro, à espera, sem o saber, de que a Música viesse recolher o que é sua exclusiva pertença: essa vibração última que está contida em todas as palavras e em algumas magnificamente."

SARAMAGO, José, in Jornal de Letras, Lisboa, 15 de Maio de 1990, pág. 29.

10 comentários:

totoia disse...

Da facto Blimunda tinha de ter um nome diferente.

Há uns tempos falou-se no Laranja com Canela sobre personagens femininas que nos marcaram, na altura não consegui dizer nenhuma mas acho que Blimunda é sem dúvida uma mulher marcante.

Laranja com Canela disse...

Bem-vinda Jazzoesfera.

Jazzoesfera disse...

Muito Obrigado

Dagarman disse...

Blimunda é grande...mas o nome é uma acassório da grandeza de uma pessoa ou personagem, mas o enorme josé está sempre a surpreender-nos, pelo menos a mim, gostava de um dia tomar um café com ele, e beber as suas palavras.

Obrigado

Dagarman disse...

*Erro, queria dizer acessorio e não acassorio.

Peço desculpas

india disse...

É nestes acrescentos à história que vou descobrindo uma figura que me tem cativado. Encontrei no discurso do nobel uma magia cativante... rendi-me às palvras tal como agora. Blimunda é uma das tais personagens que me marcaram. O pouco que conheço do Memorial tem a sua presença. E é tão forte, que outros autores a convidaram a entrar nos seus textos. Não há muitas assim.

Barão da Tróia II disse...

Uma personagem que deixou uma marca forte. Talvez um hino à mulher portuguesa, talvez!

Marta disse...

Estou pasma!! O Saramago usou pontuação!!

Professor disse...

Estou banzado! Para mim Blimunda era uma metáfora da própria condição humana.
Bela e Imunda! Blimunda!
Como no mesmo ser pode coexistir o melhor e o pior, [o ser humano podia definir-se como diamante em que algumas moléculas do carbono fossem substituídas por merda]eu cheguei a Blimunda juntando o máximo de espiritualidade - a visão extra-sensorial - com o máxima carnalidade. Mas parece que estava enganado.
Até sempre.

totoia disse...

Se já não soubessemos a razão da escolha do nome essa teoria era capaz de vingar.