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06 outubro, 2006

24 setembro, 2006

Percevejos


"Quando a cama aqui foi posta e armada, ainda não havia percevejos nela, tão nova era, mas depois, com o uso, o calor dos corpos, as migrações no interior do palácio, ou da cidade para dentro, donde este bichedo vem é que não se sabe. [...] Em noites que vem el-rei, os percevejos começam a atormentar mais tarde por via da agitação dos colchões, são bichos que gostam de sossego e gente adormecida. Lá na cama do rei estão outros à espera do seu quinhão de sangue, que não acham nem pior nem melhor que o restante da cidade, azul ou natural."

O percevejo, como bicho democrático que é, atormentou os leitos de pobres e ricos. Nem reis nem rainhas escaparam às suas picadelas infernais!

Esta falta de higiene que se manteve até ao século XIX arrepia-me. E os percevejos não são disso o único exemplo. As pessoas eram enterradas nas Igrejas e sentia-se o cheiro a carne podre durante as missas, e Lisboa era uma cidade afundada em porcaria. Saramago também nos conta o ambiente vivido na cidada das sete colinas:

"... a cidade é imunda, alcatifada de excrementos, de lixo, de cães lazarentos e gatos vadios, e lama mesmo quando não chove."

De facto, Lisboa era uma pocilga. Os penicos eram despejados para a rua, sendo o único aviso dos que nela transitavam a frase "água vai". Depois deste sinal, era fugir a sete pés!

Definitivamente, o "cheira bem, cheira a Lisboa" não se aplicava nestes tempos...

Santo António

"... fazem de Santo António o mais milagroso dos santos, mormente para encontrar coisas perdidas."

A fé no poder de Santo António para encontrar objectos perdidos mantém-se até aos dias de hoje. Aqui fica um responso ao santo, oração que ajuda a localizar o que se perdeu:

Se milagres desejais,
recorrei a Santo António;
Vereis fugir o demónio
e as tentações infernais.

Recupera-se o perdido,
rompe-se a dura prisão,
e no auge do furacão
cede o mar embravecido.

Pela sua intercessão
foge a peste, o erro, a morte,
e o fraco torna-se forte
e torna-se o enfermo são.

(repete-se Recupera-se o perdido...)

Todos os males humanos
se moderam, se retiram,
digam-nos os que o viram;
Digam-no os paduanos.

(repete-se Recupera-se o perdido...)

19 setembro, 2006

A ida do rei ao quarto da rainha

«Entram com el-rei dois camaristas que o aliviam das roupas supérfluas, e o mesmo faz a marquesa à rainha, de mulher para mulher, com ajuda doutra dama, condessa, mais uma camareira-mor não menos graduada que veio da Áustria, está o quarto uma assembleia, as majestades fazem mútuas vénias, nunca mais acaba o cerimonial, enfim lá se retiram os camaristas por uma porta, as damas por outra, e nas antecâmaras ficarão esperando que termine a função, para que el-rei regresse acompanhado ao seu quarto (...) e venham as damas a este aconchegar D. Maria Ana (...).
Vestem a rainha e o rei camisas compridas, que pelo chão arrastam (...). D. João V conduz D. Maria Ana ao leito, leva-a pela mão como no baile o cavaleiro à dama, e antes de subirem os degrauzinhos, cada um de seu lado, ajoelham-se e dizem as orações acautelantes necessárias, para que não morram no momento do acto carnal, sem confissão, para que desta nova tentativa venha a resultar fruto (...)»

in Memorial do Convento, P. 10 e 11, Ed. Narrativa Actual

A ida do rei ao quarto da rainha, para um acto íntimo, era uma verdadeira cerimónia.

16 setembro, 2006

Curiosidade ...

Foi D. João V quem mandou construir o Aqueduto das Águas Livres, com o intuito de resolver o problema de abastecimento de água à cidade de Lisboa. As obras começaram em Agosto de 1732 e o abastecimento fez-se, pela primeira vez, nos finais de Outubro de 1744.