20 outubro, 2010

24 Horas da Vida de uma Mulher de Stefan Zweig


Acabo de descobrir este autor. Já tinha ouvido falar dele mas nunca tinha lido nada nem tinha grande vontade de o fazer. Ao passear pelas estantes da biblioteca, encontrei este livro, pequeno e com um título que me agradou. Não me desiludi, fiquei com muita vontade de ler mais algumas coisas. A história é simples mas bem contada, fala das 24 horas da vida de uma mulher (tal como refere o título) e das implicações que isso teve na sua vida. 

Gostei! Boas leituras....

23 junho, 2010

Personagens...

O autor entra a matar. Parece que entramos no meio de uma sala onde toda a gente se conhece e só ouvimos os nomes e tentamos adivinhar quem é quem. Espero conseguir organizar estes personagens, até agora já encontrei:

- T.P.
- Roskus
- Quentin
- Luster
- Frony
- Dilsey (empregada da casa)
- Versh
- Benjy
- Caddy
- Jason
- Tio Maury
- Caroline
- o Pai

Acho que por agora só conhecei estes.

Boas leituras.

22 junho, 2010

Crítica literária em "Orgia Literária"

Escrito em 1928 e publicado no ano seguinte, O Som e a Fúria narra a decadência da família Compson de Jefferson, Mississipi. Uma decadência que é também a do próprio Sul dos Estados Unidos, pós guerra civil. Pois uma das forças da escrita de Faulkner é o facto de ao descrever uma situação, por mais prosaica que seja, existir sempre uma ressonância que está para lá do objecto concreto e entra no domínio do simbólico, isto é, as coisas, os lugares, as pessoas, são eles mas ao mesmo tempo são mais do que eles. Quando Benjy chora não é só ele que chora mas todo o ser humano.


Agora esteja caladinho – dizia ela, afagando-lhe a cabeça. – Esteja caladinho. A Dilsey está ao pé de si. – Mas ele chorava de mansinho, inconsolável, sem verter lágrimas; era o lamento desesperado e mudo de toda a miséria existente à face da terra.

Podemos encontrar esta mesma transcendência quase bíblica em Shakespeare e Melville, duas grandes influências para Faulkner e num escritor herdeiro deste, Cormac McCarthy.
A família Compson é composta pelo pai, Jason; pela mãe, Caroline e por quatro irmãos, Candy, Quentin, Jason e Benjy. Há ainda o tio Maury e a filha de Candy, também chamada Quentin. Os nomes são muito importantes em Faulkner e revestem-se de um significado especial, como uma herança que passa de geração para geração. Sintomático dessa importância é a mudança de nome do filho mais novo, Benjy. Inicialmente ele tinha o nome de Maury, como o tio, mas quando se descobre que ele nasceu com um atraso mental que lhe afecta a fala, dão-lhe o nome bíblico de Benjamin, como se quisessem, com essa acção, desfazer a linha de continuidade entre tio e sobrinho que a semelhança do nome consagrava e, com isso, separar simbolicamente Benjy da família. Não é por acaso que a ideia da mudança do nome vem da mãe, a personagem que está mais presa à herança genealógica da família.

Outra família acompanha os Compson ao longo do livro e funciona, de uma certa maneira, como o seu reflexo. É a família de negros que servem os Compson e cuja matriarca, Dilsey, é testemunha eterna da degradação dos brancos. Como ela diz no final, em jeito de revelação: “Vi o começo e agora vejo o fim.”

O romance divide-se em quatro capítulos, sendo os três primeiros narrados, respectivamente, por Benjy, Quentin e Jason; o último tem uma narração na terceira pessoa. Cada capítulo corresponde a um dia específico da vida das personagens, no entanto, através da moderna técnica literária da ‘corrente da consciência’, que Faulkner maneja com mestria, vários tempos se cruzam na narração ao sabor caótico dos pensamentos, emoções, memórias e obsessões dos narradores.

A família, o tempo, a fatalidade são os grandes temas de O Som e a Fúria. Em tempos uma família influente, a família Compson acaba desfeita pelo egoísmo, orgulho, ódio e ressentimento. No entanto existe lugar neste livro para o amor. Ele surge-nos essencialmente na extraordinária figura de Candy, uma personagem que apesar de só surgir em recordações alheias domina o romance. O amor que ela espalha e que perdura muito depois de deixar a família contrasta com o egoísmo da mãe e o ódio do irmão Jason. As saudades que Benjy sente dela são dos momentos mais tocantes. Vemo-la, ou melhor, percepcionamo-la como por entre um nevoeiro, a passar de criança a mulher e aprendemos a admirar-lhe o espírito, a coragem, o sacrifício. A sua saída de casa é prenúncio do fim.

O Som e a Fúria é um livro que requer uma certa predisposição do leitor. Não é um livro de leitura fácil nem a narrativa nos surge de um modo linear. Faulkner não facilita, atira-nos logo para o meio da história sem nos dar nenhuma informação prévia. O leitor passa a ser então uma espécie de detective apanhando pistas aqui e ali, juntando os fragmentos, montando o puzzle e aos poucos vai conseguindo extrair o significado do texto. Personagens e acontecimentos aparecem no início desfocados, envoltos em sombras, para a pouco e pouco irem tomando forma. O génio de Faulkner está no facto deste esforço não ser cansativo mas sim altamente recompensador e estimulante. O último capítulo revela o que até aí tínhamos apenas intuído. 

Durante os primeiros capítulos o leitor habita a cabeça de três pessoas completamente diferentes, de repente o mundo alarga-se e as formas aparecem com toda a nitidez.
O início é soberbo e está só ao alcance dos melhores. Benjy é um idiota cujo relacionamento com o mundo se faz sobretudo através de sensações: as cores; as luzes; o cheiro das árvores; o som da chuva. Aos trinta e três anos tem a idade mental de três. Com outro escritor talvez a identificação com uma personagem como esta fosse difícil. Mas não com Faulkner. Não só o leitor sente profundamente todo o sofrimento de Benjy como se fosse seu mas também ganha uma outra compreensão para as pessoas com este tipo de deficiência. É que por umas páginas nós somos essas pessoas. Nós sentimos como é ficarmos parados no tempo, sempre os mesmos, enquanto tudo à nossa volta se desenvolve, transforma e decai sem termos consciência disso. No extremo oposto a Benjy está Jason, um poço de ódio, egoísmo e ressentimento sem disfarces. Cru na sua maldade, medíocre na sua frustração, impotente na sua raiva.

Para terminar, uma palavra para a nota introdutória, desta edição, da autoria de António Lobo Antunes. Apesar de pequena ela é importante porque fornece pistas na abordagem ao texto que são essenciais para uma entrada mais suave no livro. Como diz Lobo Antunes: “O Som e a Fúria possui a qualidade de ser um romance que, tal como a grande poesia, se relê no maravilhamento da descoberta: a todo o passo damos com pormenores que nos haviam passado despercebidos, em cada página nos emocionamos.”

20 junho, 2010

Estamos a ler...

Mês cruel

Saramago e João Aguiar, dois dos escritores preferidos do à volta das letras morreram no mês de Junho, para o próximo ano deveríamos prestar-lhes uma homenagem lendo alguns dos livros deles... Que acham?

Tristes

"A morte serva para que possamos continuar a viver"

Citação de Saramgo usada na capa do jornal i deste fim de semana. 

Leituras em atraso...

O À Volta das Letras anda preguiçoso. Deixou acumular leituras. Chegados a Julho já deveríamos estar a trabalhar numa nova lista de livros e ainda vamos no livro de Abril, mas como a lista escolhida para este ano é rica em clássicos e livros que queremos mesmo ler não a vamos abandonar. 

Por isso para Julho vamos ler O som e a fúria de Faulkner que existe na colecção Mil Folhas (ouviste Laranjinha). 


Boas Leituras!

26 fevereiro, 2010

Até Domingo,

às 10h30 na cafetaria do MUDE, o livro em "discussão" é o 1984. Mais uma vez temos muita conversa garantida. Livros, filmes, séries... São alguns dos nossos assuntos preferidos.

Já estou a ler Pela Estrada Fora de Jack Kerouac...


Boas leituras.

17 fevereiro, 2010

O termo Vaporizada ...

«Não pôde impedir-se de sentir um arrepio de pânico. Era absurdo, pois o facto de ter escrito aquelas palavras não seria mais perigoso do que o acto inicial de abrir o diário; mas por momentos esteve tentado a arrancar as páginas usadas e abandonar de vez o intento.

Não o fez, todavia, pois sabia que era inútil. Quer escrevesse ABAIXO O GRANDE IRMÃO, quer se coibisse, não fazia diferença. Tanto adiantava que continuasse com o diário como não. Fosse como fosse, a Polícia do Pensamento haveria de o apanhar. Tinha cometido - e teria cometido na mesma, ainda que nunca tivesse pegado na caneta - o crime essencial que continha em si todos os outros. Pensarcrime, assim lhe chamavam. O pensarcrime não era uma coisa que se pudesse esconder eternamente. Uma pessoa podia esquivar-se com êxito durante algum tempo, durante anos até, mas mais tarde ou mais cedo seria fatalmente apanhada.

Acontecia sempre durante a noite - as prisões executavam-se invarialvelmente à noite. O despertar em sobressalto, a mão rude a abanar-nos o ombro, as luzes cruas a ferir-nos os olhos, o círculo de rostos duros à volta da cama. Na esmagadora maioria dos casos não se procedia a julgamento, nem auto de prisão. As pessoas limitavam-se a desaparecer, sempre durante a noite. O nome era apagado dos arquivos, suprimido todo e qualquer registo do que a pessoa alguma vez tivesse feito, negado e depois esquecido o facto de alguma vez ter existido tal indivíduo. A pessoa era abolida, aniquilada: vaporizada, o termo geralmente usado. »

George Orwell, 1984, Colecção Mil Folhas, P. 23

16 fevereiro, 2010

Dois Minutos de Ódio

«Foi quase às onze horas, no Departamento de Arquivo, onde Wiston trabalhava, estavam a arrastar as cadeiras para fora dos cubículos e a reunu-las no meio do salão diante do telecrã, preparando os Dois Minutos de Ódio. (...)

Como de costume, surgira no telecrã o rosto de Emmanuel Goldstein, o Inimigo do Povo. Ouviam-se aqui e ali assobios dos espectadores. (...) Goldstein era o renegado e o apóstata que outrora, há muito tempo (há quanto tempo, ninguém se lembrava ao certo), fora uma das figuras cimeiras do Partido, quase ao nível do Grande Irmão, e depois desenvolvera actividades contra-revolucionárias, sendo condenado à morte, mas conseguira fugir e desaparecer misteriosamente. Os programas dos Dois Minutos de Ódio variavam de dia para dia, não havendo nenhum em que Goldstein não fosse a figura principal. Ele era o traidor primevo, o primeiro corruptor da pureza do Partido, todas as traições, actos de sabotagem, heresias, desvios, eram o resultado directo dos seus ensinamentos. (...)

Ainda não tinham passado trinta segundos de Ódio e já metade da sala soltava incontroláveis exclamações de raiva. (...)

No segundo minuto o Ódio transformou-se em frenesi. As pessoas saltavam das cadeiras e berravam a plenos pulmões, esforçando-se por abafar os balidos ensurdecedores que vinham do ecrã. (...)

O que tinham de horrível os Dois Minutos do Ódio não era a obrigatoriedade de cada qual representar um papel, mas, pelo contrário, o facto de ser-se impossível não participar.»

George Orwell, 1984, Colecção Mil Folhas, p. 16, 17, 18 e 19.

Os Ministérios

«O Ministério da Verdade (...) era surpreendentemente diferente de todos os outros objectos visíveis. Enorme estrutura piramidal de luzidio cimento branco, elevando-se, terraço sobre terraço, a 300 metros de altura. De onde Winston se encontrava, era ainda possível ler, gravados na face branca do edifício em letras elegantes, os três slogans do partido:

GUERRA É PAZ
LIBERDADE É ESCRAVIDÃO
IGNORÂNCIA É FORÇA

O Ministério da Verdade tinha (...) três mil salas acima do solo, e outras tantas ramificações subterrâneas. Espalhados por Londres havia apenas outros três edifícios com aspecto e dimensões semelhantes. Esmagavam tão completamente a arquitectura circundante que do telhado das Mansões Vitória era possível ver os outros quatro todos aos mesmo tempo.Tratava-se das sedes dos quatro Ministérios entre os quais se repartia todo o aparelho governativo. O Ministério da Verdade ocupava-se das notícias, dos divertimentos, do ensino e das belas- artes. O Ministério da Paz, que se ocupava da guerra. O Ministério do Amor, que garantia a lei e a ordem. E o Ministério da Riqueza, responsável pelos assuntos económicos. Os seus nomes, em novílingua: Minivero, Minipax, Miniamor e Minirico.

De todos eles, realmente medonho era o Ministério do Amor. Sem uma única janela.»

George Orwell, 1984, Colecção Mil Folhas, p. 9 e 10.

1984 - a primeira frase ...

«Era um dia claro e frio de Abril, nos relógios batiam as treze. Winston Smith, queixo aninhado no peito, num esforço para se proteger do malvado vento, esgueirou-se depressa por entre as portas de vidro das Mansões Vitória, não tão depressa, porém que não entrasse com ele um turbilhão de poeira arenosa.»

George Orwell, 1984, Colecção Mil Folhas, 2002.

13 fevereiro, 2010

Lembrete

Encontro do À Volta das Letras dia 28, 10h30, na cafetaria do MUDE. O livro em "discussão" é o 1984 de George Orwell. Venham conversar sobre o 1984 e sobre livros, cinema, teatro, politica, trabalho, comida, viagens e tudo aquilo que literalmente vier à baila.

Boas leituras

12 fevereiro, 2010

Começas agora a entender-me?

“Fingiam, talvez até acreditassem, terem tomado o poder a contragosto e por um período de tempo limitado, e que logo ao virar da esquina havia um Paraíso onde os seres humanos poderiam ser livres e iguais. Nós não somos assim. Sabemos que ninguém toma o poder com o intuito de o deixar. O poder não é um meio, é um fim. Não se instaura uma ditadura para se salvaguardar uma revolução; faz-se a revolução para se instaurar é a perseguição; o da tortura é a tortura; o poder do poder, o poder. Começas agora a entender-me?”

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