04 agosto, 2006

Laço Divino

"O Stefano é o mais velho do grupo, eu sou o mais novo, mas na realidade temos todos a mesma idade mental. Temos a idade europeia da maturidade driblada, do matrimónio adiado, da paternidade esquivada. Somos esse cocktail ocidental, único no percurso da humanidade, que mistura conhecimento e irresponsabilidade, cepticismo antigo e leveza amoral, vida fácil e experiência de vida.

Somos o contrário do que fotografamos."

in A Lua Pode Esperar

Quando li esta passagem, senti um enorme vazio no peito, tal foi a verdade que nela encontrei. Também eu me vejo assim, declarando guerra a qualquer tipo de responsabilidade, sem pressa de crescer, mas não conseguindo fugir à inevitável passagem do tempo. Já atingi a idade adulta há uns anos, mas sinto-me e vejo-me ainda como uma criança. Tenho ânsia de conhecer e de descobrir, e sonho poder um dia viajar pelos locais que apenas olhei pela televisão, jornais e revistas.
Os locais exóticos, dos quais o livro fala e que eu tanto gostaria de visitar, são a terra de gente que apesar de pobre e menos instruída do que nós, está indiscutivelmente mais próxima da natureza, mais perto daquilo que o ser humano deveria ser - mais puro e verdadeiro! E perante esses rostos e olhares de velhos e crianças, de filhos e de pais, disparamos as nossas máquinas fotográficas, imortalizando no nosso coração a memória daquela simplicidade de vida. E é nessa altura que sentimos algum grau de impureza, porque a vida é um ciclo de nascimento e morte e a nossa fuga à responsabilidade, principalmente à da maternidade, parece quebrar um laço divino, lançando o caos na ordem original das coisas.
Somos instruídos, viajamos na net e construímos arranha-céus, mas sentimo-nos vazios e cada vez mais longe uns dos outros.
Estaremos a perder a nossa humanidade?

2 comentários:

Laranjinha disse...

Penso que não. Temos vindo a construir um outro modo de vida, que pode ir contra os cânones tradicionais. Decidirmos ter filhos cada vez mais tarde, ou até mesmo não ter, era algo que, se calhar no tempo das nossas avós seria impensável. Muitas das mulheres tinham como objectivo de vida casar, ter filhos, cuidar da casa e do marido. Poucas trabalhavam fora de casa.
Hoje, o mundo já não é o que era, para o bem e para o menos bem, para não dizer mal.
A nossa humanidade reside naquilo que faz de nós seres humanos: a racionalidade, a capacidade de amar e sentir. Isso nós não não perdemos. Podemos é amar e sentir de uma maneira diferente.

totoia disse...

Não nos podemos esquecer que as mulheres assumiram um papel mais activo na sociedade, hoje estão no mercado de trabalho tal como os homens. E faz parte da realização de qq mulher o êxito na sua profissão, o problema é que a sociedade ainda não se adaptou a esta situação. Exigimos muito de nós, queremos ser boas profissionais e para isso temos de adiar a criação da familia para muito mais tarde, por vezes tão tarde que deixa de fazer parte dos planos.

O facto de sermos mais instruídos, também nos tornou mais exigentes, até no amor.

Acredito que continuamos a ter os mesmos sentimentos que os nossos antepassados, mas ajustados ao mundo de hoje.